A paralisante criação do Eu em Baldur’s Gate 3

Criar um bom personagem é mais difícil do que parece.

Décadas depois, Baldur’s Gate 3 caminha entre nós. Resta a pergunta: é realmente o grandioso e disruptivo CRPG que nos prometeram? Eu não saberia dizer, pois a maior parte do tempo que passei com o jogo foi olhando para estatísticas, descrições e penteados no menu de criação do personagem, incapaz de bater o martelo quanto ao tipo de avatar que me representaria pelas próximas cem horas de jogo. Assim, enquanto 500 mil jogadores simultâneos exploravam BG3 em seu lançamento, eu estava paralisado pela responsabilidade de criar a mim mesmo, em constante dúvida sobre qual raça, classe e subclasse estariam mais alinhadas ao meu estilo de jogo; sobre que tipo de pênis me definiria como personagem.

Segundo o jogo, esse é um pênis-padrão.

O sistema de criação desenvolvido pela Larian Studios oferece, literalmente, centenas de opções de personalização para montar seu personagem, tanto estéticas quanto (principalmente) funcionais. Mesmo antes de pisar nos Reinos Esquecidos, fui confrontado por uma longa sequência de perguntas que definiriam minha experiência naquele universo. Qual será a raça do meu personagem? Que tipo de habilidades ele terá? Que ofícios ou virtudes morais vai trazer em sua bagagem? Será um homem, uma mulher ou uma pessoa não binária? Um monge ou um paladino? Um elfo ou um anão? E afinal, qual é a diferença entre um gnomo e um halfling?

BALDUR’S GATE 3 E A CRIATIVA PARALISAÇÃO DO EU

Assim como meio milhão de jogadores, eu estava ansioso para botar minhas mãos cheias de dedos em Baldur’s Gate 3, mas não podia ser leviano com a criação do personagem – correndo o risco de me arrepender depois de 20 ou 30 horas de campanha. Afinal, mesmo que seja possível refazer essas escolhas dentro do próprio jogo (por meio de um NPC ou espelho mágico, por exemplo), sou apegado demais à parte role-playing da coisa para modificar meu personagem no meio do caminho. Como escritor, refazer o protagonista ao longo da narrativa me parece, na falta de uma palavra melhor, desleixado. Por isso, cruzei metaforicamente meus braços e dediquei uma tarde inteira à minuciosa criação do meu avatar em BG3.

Primeiro, tentei imaginar que tipo de indivíduo eu queria ser. Talvez um cara grande e violento, do tipo que abre seu caminho a pontapés rumo ao sucesso? Não, eu estava menos interessado em causar destruição e morte do que em passear pelo mundo e conhecer seus habitantes. Quem sabe um elfo? Clássico e elegante, pronto para jogar uma boa conversa fora. Sim, um elfo parecia a escolha certa.

Mas então pensei melhor e concluí que um elfo seria clássico e elegante demais. Com tantas opções disponíveis, era até mesmo esnobe de minha parte fazer uma escolha tão pouco criativa. Vasculhei com mais cuidado por entre as raças. Fui ao banheiro. Escovei os dentes. Voltei. Dez minutos depois, me decidi por um meio-elfo, o cruzamento entre um elfo e um ser humano regular.

Era isso, estava decidido.

Quero dizer: por cinco minutos, estava decidido. Mas então me sobreveio o pensamento de que um meio-elfo é basicamente um elfo com metade da classe e elegância de um elfo completo. Parecia comum demais; sem graça demais. Senti que, para explorar o potencial desta grandiosa aventura que acenava para mim por trás do menu de criação, eu precisava abandonar minha zona de conforto. Sem elfos, sem orcs, sem feiticeiros. Vamos tentar algo diferente.

Seguindo novas diretrizes, fiz do meu protagonista um draconato druida: um hábil guerreiro-dragão conectado à natureza, capaz de transmutar-se em um poderoso animal para dominar o campo de batalha. Aliás, não seria um guerreiro, mas uma guerreira; e já não seria uma draconata, e sim uma anã. Dei a ela um moicano cor-de-rosa, um olho de cada cor e uma porção de piercings, como se fizesse parte de uma banda punk medieval. Era isso, estava decidido. Valia a piada.

Mas será que valia mesmo?

Logo percebi que seria um erro, desmontei minha criação e voltei à prancheta.

A PARALÍTICA CRIAÇÃO DO EU EM BALDUR’S GATE 3

Para que eu fosse capaz de gostar dela, percebi, minha personagem precisava de um mínimo de charme. Na tentativa seguinte, criei uma tiefling, espécie de demônio com chifres e pele vermelha capaz de inspirar igualmente medo e fascínio no coração dos homens. E mais: seria uma tiefling com poderes de persuasão infernais, truques de fogo e proteção de 50% contra ferimentos provocados por lâminas. E seria uma bruxa, e seria uma heroína. Pronto, era isso. Estava decidido.

Mas então pensei: quero mesmo sair por aí carregando chifres no alto da minha testa por uma centena de horas campanha adentro? Talvez não. Comecei a buscar outras opções enquanto o sol descrevia um arco no horizonte. Fui ao banheiro outra vez. Passei café. Quanto mais chafurdava nas alternativas de personalização, mais dúvidas eu tinha sobre o personagem que estava criando; sobre minhas capacidades enquanto criador de mim.

Comecei a me perguntar quem era Eu e o que esperava de Mim enquanto representação virtual do meu próprio self naquele universo de uns e zeros. Claro, eu era um sujeito normal chamado Yohan, um cara escrevendo sobre videogames. Mas quem eu realmente queria ser agora que poderia ser quem eu quisesse? E por que estava dando tanta importância àquilo? Havia um monte de personagens prontos no menu de criação, afinal de contas.

Foi quando uma lâmpada se acendeu sobre a minha cabeça e percebi que estava olhando na direção errada. Em vez de jogar com magos, bárbaros ou arqueiros, eu me lançaria nesta empreitada com o personagem mais ordinário que pudesse criar – um sujeito mecanicamente simplório, com as mais triviais habilidades que o jogo me permitisse escolher. Eu jogaria como eu mesmo.

Assim, materializei-me nas linhas de código de Baldur’s Gate 3 como um bardo boa-praça de nome Yohan, em tudo semelhante à sua contraparte na vida real, incluindo o par de enigmáticos olhos castanhos.

Yohan é um ser humano de pênis C com pouca Força e baixa Constituição, como no mundo real. Mas tem a seu favor uma ridícula quantidade de pontos alocados em Carisma. É claro que posso acabar em uma poça de sangue nos primeiros combates, mas levarei na conversa qualquer um disposto a parlamentar.

Fazem parte das habilidades de Yohan – ou antes, devo dizer, das minhas habilidades – lançar insultos contra o oponente e provocar crises de riso no inimigo, mais uma vez estabelecendo paralelos com a realidade. E, assim como na vida real, sou capaz de conversar com os animais – mas agora eles também conversam comigo.

É isso, está decidido. Tenho meu personagem. Longa vida ao meu personagem.

É ISSO, ESTÁ DECIDIDO

Quase posso ouvir o Portão de Baldur se abrindo para me receber. Estou a um clique de distância agora. Minha carreira em Faerûn começará na próxima tela. Depois de quatro horas no menu de criação, estou finalmente pronto para fazer meu nome; para escrever a história de minha grande jornada.

Quero dizer… estou?

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Compartilhar esse artigo:

Artigos relacionados

Rolar para cima